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Vidas em Chamas

escrito por
Daniela de Lima Sousa

baseado em "Vidas em Chamas",
de Zezé Pedroza


FADE IN:

EXT. RUA - DIA
NATALÍ, 11 anos, está voltando da escola com a sua mãe, ODETE, 40 anos. As duas atravessam de mãos dadas uma rua cheia de carros parados no trânsito, ao som de uma banda.

VOZ MASCULINA (O.S)

Venham para o Gran Circus Norte-
Americano! Grande estreia esse
domingo às 15h! Venham todos!

Natalí pula e se estica para os lados para tentar ver melhor por entre os carros. Sua mãe não solta sua mão. Mais à frente acontece um desfile do circo. Bailarinas em roupas esvoaçantes, palhaços, malabaristas e a banda. A garota sorri empolgada.

INT. QUARTO DE NATALÍ - DIA
Natalí está deitada de lado em sua cama, de olhos abertos e com o lençol na boca, mordendo ansiosa. Odete entra no quarto e vai abrir as cortinas.

ODETE

Vamos acordar! O sol já está bem
alto e não é por ser domingo que
você vai levantar tarde! Amanhã é
dia de aula, não pode acostumar mal
o corpo!

Ela anda até a cama, beija a testa da filha e a descobre.

ODETE (CONT’D)

E hoje ainda vamos visitar a sua
avó!

Odete deixa o quarto. Natalí levanta e vai para o banheiro.

INT. BANHEIRO - DIA
Natalí está de frente para o espelho, olhando o reflexo da porta atrás de si, com uma expressão preocupada. Ela passa a encarar o seu próprio reflexo.


NATALÍ
(em voz baixa)
Vamos lá, é só pedir. Eles vão
deixar!

A garota joga água no rosto e pega sua escova de dentes.

INT. SALA DE JANTAR - DIA
A mesa do café da manhã está cheia de comida, com pães, manteiga, geleias, bolo, biscoito e uma garrada com café. GERALDO, 45 anos, está sentado lendo um jornal. Na capa, a notícia da inauguração do circo. Odete chega trazendo uma jarra de suco e se senta. Natalí chega logo a seguir e se junta aos pais.

GERALDO
Bom dia, filha!

NATALÍ

Bom dia!

A menina pega um pedaço de pão e passa manteiga nele.

GERALDO
Dormiu bem?

NATALÍ
Sim e o senhor?

Geraldo vira a página do jornal e bebe um gole do seu café.

GERALDO

Também.

Natalí observa a capa do jornal, pega um pão e balança os pés, inquieta. Odete aponta para a comida da filha.

ODETE

Come bem pra gente poder ir visitar
a sua avó daqui a pouco.

Natalí morde o pão que segura e muda de posição na cadeira.

NATALÍ
(mais animada do que
gostaria de parecer)
A grande estreia do circo é hoje!


Geraldo continua lendo o jornal e Odete nem olha para Natalí enquanto se serve de suco.

ODETE

É.

Natalí suspira ao perceber que o assunto morreu por ali. Ela olha para o relógio na parede e engole em seco. Dá outra mordida no pão. A campainha toca. Odete sai para atender.

NATALÍ

Pai, eu vi o desfile do circo na
sexta. Foi tão bonito!

GERALDO
(fechando o jornal e
olhando para a filha)
Eu ouvi que eles passaram pela
cidade toda.

Odete volta para a mesa acompanhada de LAURA, 21 anos. A jovem cumprimenta Geraldo e Natalí com um abraço e se senta.

ODETE

Come com a gente. Aceita um suco?

LAURA

Obrigada, madrinha, eu já comi.

Laura troca um olhar de empolgação com Natalí, mas a garota devolve um olhar de dúvidas.

INT. QUARTO DE NATALÍ - DIA
Laura está sentada na cama, ainda desfeita. Natalí está em pé, andando de um lado para o outro.

NATALÍ

Eu vou pedir na hora do almoço.
Eles te adoram, nosso plano vai dar
certo.

LAURA

Sim, eu vou falar com eles. Nós não
vamos perder a estreia.

Natalí pula de um lado para o outro, imitando uma bailarina. No fim do seu ato, ela se curva na ponta dos pés, em agradecimento. Laura ri e joga um travesseiro nela.


INT. SALA DE JANTAR - DIA
Laura ajuda Odete a arrumar a mesa para o almoço. Natalí já está sentada. Na mesa estão os pratos, talheres e Laura está colocando os copos. Ela olha para Natalí e pisca um olho, sorrindo, antes de voltar para a cozinha.

NATALÍ
(chamando em voz alta)
Pai!

Geraldo chega e se senta.

GERALDO

Que pressa é essa? A comida nem foi
servida ainda.

Laura volta trazendo o macarrão e Odete traz a galinha. Todos se sentam e o Geraldo é o primeiro a se servir, seguido de Natalí, que quase derruba um copo.

NATALÍ

A Laura pode me levar no circo
hoje?

A mãe, que estava com a colher no ar indo pegar o macarrão, para e olha para a filha.

ODETE

De maneira alguma! Você só sai
comigo e iremos visitar sua avó.
Esqueceu que ela está doente?

Natalí olha para o próprio colo.

GERALDO

Que bobagem, Odete. Eu acho uma boa
ideia. A Laura é uma moça
responsável.

A garota levanta a cabeça, boquiaberta.

GERALDO (CONT’D)
A menina só estuda, ela merece se
divertir também. Marca um horário
pra elas voltarem e pronto.

ODETE

Mas ela nunca saiu com ninguém. E
eu estou com um mal pressentimento.
Aquele circo é num lugar meio esquisito...

Natalí não se contia de alegria e devorava seu almoço.

NATALÍ
(entre garfadas)
Obrigada, obrigada! Vai ser
incrível. Todas aquelas bailarinas!

Odete começa a chorar.

NATALÍ (CONT’D)

E os trapezistas!

A mãe se levanta e sai.

INT. QUARTO DE NATALÍ - DIA
Natalí está rodopiando em seu vestido novo, descalça, com joias e com rolinhos no cabelo. Ela senta na cama, agora já arrumada, para calçar suas sandálias azul de plástico.
Laura fica em pé atrás dela e retira os rolinhos dos cabelos da garota.
Odete entra, com uma expressão preocupada.

NATALÍ

Prometo que vou na vovó amanhã. Ela
vai entender.

LAURA

E eu prometo que vou cuidar bem da
Natalí.

ODETE

Eu quero vocês aqui de volta às
18h. Tenha o circo acabado ou não.

NATALÍ E LAURA

Combinado!

Odete sai do quarto.

EXT. PONTO DE ÔNIBUS - DIA
Natalí e Laura sentadas no ponto de ônibus. Natalí levanta, vai até a rua e tenta avistar a condução.


LAURA
(rindo)
Encarar a rua toda hora não vai
fazer o ônibus chegar mais rápido.
Você está ansiosa?

Natalí, ainda parada na beira da calçada, olha para Laura.

NATALÍ

Sim, eu nunca saí sem a minha mãe,
você sabe. E vai ser uma super
estreia!

O ônibus se aproxima do ponto. Natalí faz sinal para ele parar.

NATALÍ (CONT’D)

Viu, chegou só porque eu encarei a
rua.

As duas entram.

INT. ÔNIBUS - DIA
Natalí atravessa a catraca e espera Laura em pé do outro lado. Laura passa pela catraca também e se senta perto da janela.
O ônibus não está cheio e Natalí senta na janela também, sozinha e no corredor oposto. As duas se olham e trocam um sorriso.
Natalí coloca o rosto para fora da janela e sente o vento e o sol batendo nela.

EXT. CIRCO - DIA
Algumas famílias estão chegando, atrasadas para o espetáculo. Laura está na bilheteria comprando os ingressos e Natalí está de costas para ela, admirando a entrada. Laura se vira, com os bilhetes na mão e toca nos ombros da menina.

LAURA

Demos sorte! Os últimos ingressos.
Lá dentro deve estar lotado.
As duas andam em direção à entrada.


INT. CIRCO - DIA
Circo lotado. Aproximadamente 2000 pessoas. As luzes já estão apagadas e Natalí e Laura caminham com dificuldade para os seus lugares, na quarta fileira da arquibancada, um pouco longe da entrada.
Os holofotes passeiam pelo palco vazio. Natalí olha em volta boquiaberta e um pouco apreensiva. Elas conseguem se sentar. Tudo em volta é colorido. Uma música anima a plateia. Natalí observa as outras crianças acompanhadas dos pais e sorri, agora confiante, olhando para Laura. Os holofotes param de girar no palco e iluminam o apresentador do circo ao centro.

APRESENTADOR

Respeitável público! É com grande
honra que eu anuncio o belo, o
incrível, o poderosíssimo, o único,
o... Gran Circus Norte-Americano!

O público aplaude. As luzes se apagam e quando acendem de novo o apresentador não está mais lá. Em seu lugar, dois malabaristas se apresentam arremessando bolas para o alto enquanto se equilibram em monociclos.

APRESENTADOR (O.S.) (CONT’D)
Com vocês, a dupla mais temível de
toda a América!

A música muda para um tom mais sério de suspense. Os malabaristas jogam as bolas por entre uma fresta no palco e alguém arremessa facas para eles. Eles pegam as facas no ar e começam a jogá-las um no outro. A plateia está vidrada na apresentação. Todos ficam boquiabertos quando os malabaristas colocam fogo nas facas.

PLATEIA

OOOH!

Natalí está com os olhos arregalados e sentada na pontinha da cadeira.
Os malabaristas realizam seu show e depois apagam o fogo, fazendo um agradecimento. A música volta a ficar animada e a plateia suspira.

SEQUÊNCIA:
A) Uma bailarina entra no lombo de uma girafa, dançando
graciosamente com lacinhos na cabeça e uma sombrinha.
B) Natalí sorri encantada.
C) Mais bailarinas entram e dançam na corda bamba.
D) Palhaços alegram o ambiente.
E) A plateia gargalha.
F) Elefantes fazem movimentos coreografados.
G) Trapezistas entram no palco. Eles se balançam e trocam de trapézio em uma altura enorme.
H) Natalí fica deslumbrada.
FIM DA SEQUÊNCIA.

VOZ NA PLATEIA
(gritando)
FOGO!

Natalí olha distraída para o lado e vê labaredas de fogo à esquerda e ao fundo. A plateia começa a se desesperar e a correr, tentando chegar na única porta do circo.
No impulso, Natalí se levanta e corre também. A garota olha para trás e não vê Laura. O fogo está se aproximando e há muito desespero e gritos.
Natalí é empurrada e empurra várias pessoas no meio do tumulto. A porta é muito pequena para esse tanto de gente sair sem se machucar, mas a garota está chegando lá.

SEQUÊNCIA:
A) Pessoas muito próximas e mãos empurrando os corpos.
Tumulto.
B) Natalí olhando em volta aflita.
C) Sandália de Natalí sendo pisada e a jovem tropeçando.
FIM DA SEQUÊNCIA.

Natalí cai de bruços. Seu olhar se transforma em agonia e dor. O fogo se espalha nos braços da menina. Ela tenta levantar, mas não consegue.
Sons de sirene e gritos. Muita fumaça. A tenda está derretendo.
Pedaços de serragem vão colando no rosto de Natalí. Ela se debate vendo os outros saírem. As chamas se espalham pelo seu corpo.
Equipes de resgate entram, confusas sem saber quem salvar primeiro.
Um homem pisa em Natalí para conseguir sair. Ela vê de relance os pés dele alcançando a saída.
Natalí tenta tossir, mas não consegue.

INT. CASA DE NATALÍ - DIA (FLASHBACK)

SEQUÊNCIA
A) Natalí muito feliz após seu pai ter deixado ela ir ao
circo.
B) Odete chorando.

INTERCUT WITH:
Natalí se arrastando no chão em direção a porta. Muito sofrimento no seu rosto e chamas ao seu redor.
C) Natalí rodando com o seu vestido novo.
D) Natalí calçando as sandálias de plástico.
E) O olhar preocupado da mãe pedindo para estarem em casa às 18h.
FIM DO FLASHBACK

Natalí ainda se arrastando. Suas sandálias derretidas ficam para trás.
FIM DO INTERCUT.

EXT. CIRCO - DIA
Natalí em pé, descalça e com os pés cheio de bolhas. Seus braços com queimaduras, mas suas roupas inteiras. A garota olha ao redor, confusa. Há um caminhão de refrigerantes estacionado ali e pessoas são carregadas para ele.
Corpos vivos, machucados e mortos estão atirados no chão, misturados. O ar está coberto de fuligem. Muitas pessoas choram.
Laura puxa Natalí pelo ombro, desesperada para sair dali e avaliando as queimaduras da menina. Elas andam em direção à rua, onde há uma ambulância.


LAURA

Eu vou te tirar daqui, vai ficar
tudo bem.

Na multidão instaurada ali, duas mulheres se prontificam para socorrer Natalí.
Várias pessoas já estão na ambulância e não há nenhum espaço livre. Laura suspira. Juntas elas andam até uma casa próxima. Laura com os braços nas costas de Natalí, servindo de apoio para ela. As bolhas nos pés da garota estourando com a caminhada acelerada.
Natalí solta um gemido de dor.

LAURA (CONT’D)
Só mais um pouquinho.

EXT. FACHADA DA CASA - DIA
Laura e Natalí chegam na casa do DR. CONRADO. Ele pode ser visto através da janela, assistindo futebol na televisão.

LAURA
(gritando)
Dr. Conrado! Ajuda!

O homem olha na direção da voz e, ao ver Natalí machucada, se levanta correndo e vai até ela.

DR. CONRADO
O que aconteceu, meu Deus?

LAURA
Um incêndio.

Um som em um alto falante se sobrepõe à voz de Laura.

VOZ NO ALTO FALANTE (O.S.)
Grande incêndio ocorre no Circo!
Precisamos de auxílio às vítimas
imediatamente.

NATALÍ

Eu nasci no Hospital dos Marítimos.
Vão me atender lá.

Dr. Conrado corre de volta para dentro de sua casa.

DR. CONRADO
(enquanto se distancia)
Eu vou chamar um carro pra vocês!


INT. HOSPITAL DOS MARÍTIMOS - RECEPÇÃO - DIA
Natalí está em uma maca na recepção do hospital.

NATALÍ

Natalí Pedroza. 11 anos. Por favor,
chame a minha mãe, Odete.

A garota desmaia e sua maca é empurrada por um enfermeiro.

INT. OUTRO HOSPITAL - CORREDOR - NOITE
Odete, desesperada, passa por um corredor em um hospital. Ela vai abrindo as portas dos quartos, entrando e saindo rapidamente, à procura da filha.

INT. OUTRO HOSPITAL - NECROTÉRIO - NOITE
Odete em uma sala com vários corpos carbonizados e não identificados. Ela olha a arcada dentária de um por um e balança a cabeça negativamente, com suspiros de alívio.
Uma médica entra na sala.

MÉDICA

Me informaram que algumas vítimas
foram levadas ao Hospital dos
Marítimos.

ODETE
(saindo da sala apressada)
Obrigada, doutora.

INT. HOSPITAL DOS MARÍTIMOS - ENFERMARIA - DIA
Natalí deitada na cama, toda enfaixada e inconsciente. Odete ao seu lado, em uma poltrona.
Há mais 35 camas na enfermaria, todas cheias.
TIMELAPSE: Natalí ainda desacordada. Odete levantando, sentando, saindo do quarto e voltando diversas vezes. As camas ao redor vão sendo esvaziadas até sobrar apenas Natalí
e um rapaz.
Fim do timelapse.
Geraldo entra na enfermaria. Vai até a maca e pega na mão da filha. O aparelho cardíaco desenha os batimentos da garota.
Geraldo senta na poltrona e abre o jornal. Há uma enorme lista com nomes de falecidos e ele vê o nome da filha. Geraldo balança a cabeça e fecha o jornal.

INT. CONSULTÓRIO MÉDICO - DIA
Natalí, Odete e Geraldo estão sentados em uma sala de consultório, esperando o médico.
Natalí olha o seu reflexo em um espelho na mesa, encarando sua nova realidade física. Os braços da garota estão colados ao corpo. Seu rosto grudado ao pescoço. As mãos atrofiadas e ela possui ataduras pelo corpo. Odete segura um terço. O doutor entra.

MÉDICO
Bom dia! Como estão?

ODETE

Bom dia, doutor. Me dê boas
notícias!

Odete prende a respiração na cadeira, suas mãos unidas em uma prece.

MÉDICO

O pior já passou. Apesar de Natalí
ter tido queimaduras de 3o grau em
90% do corpo, ela é uma mocinha
muito forte e vai ficar bem.

Odete solta a respiração, sua postura se desfazendo na cadeira. Geraldo olha para a filha e sorri.

ODETE

Glória a Deus! Foi um milagre
porque tivemos muita fé.

MÉDICO

Natalí passará por algumas
cirurgias plásticas e levará uma
vida normal. Por enquanto, ela
precisa vir aqui 2 vezes na semana
para trocarmos os curativos.

Natalí abaixa a cabeça, olhando para as ataduras.

ODETE

Estaremos aqui. Pode deixar.


GERALDO
(levantando e estendendo a
mão ao médico)
Muito obrigado, doutor.

Odete também se levanta. O médico aperta a mão de Geraldo. Natalí hesita por um segundo, seus olhos encontrando seu reflexo novamente. Depois ela se levanta.

MÉDICO
(apertando a mão de Odete)
Vamos cuidar dessa menina preciosa.

Natalí sorri envergonhada.
Os três saem do consultório.

EXT. RUA - DIA
Sol forte. Natalí e sua mãe caminham na rua em direção ao ponto de ônibus. Natalí está vestindo uma camiseta de manga curta e é possível ver grandes marcas em seus braços, cobertas parcialmente por ataduras.
A garota está suando e se abana com a mão. O ponto de ônibus está logo na frente delas. Natalí percebe que esqueceu de colocar a blusa de frio e para de andar.

NATALÍ
(aflita)
Mãe, a gente tem que voltar agora!

Odete para de andar também e se vira para olhar a filha, séria.

ODETE
(rígida)
Você nunca mais vai se cobrir pra
esconder essas marcas. Eu te amo
desse jeito e sempre vou te amar.

Natalí olha para o chão.

ODETE (CONT’D)

Isso não é motivo pra ter vergonha.
Você não é pior do que ninguém.
Quem não quiser olhar que não olhe.
E já estamos atrasadas pra
consulta.

As duas continuam paradas. Natalí levanta a cabeça. Ela está chorando. Odete espera a próxima ação da filha.


Natalí continua andando em direção ao ponto de ônibus e sua mãe a segue, aliviada.
No ponto tem mais duas pessoas esperando. Mãe e filha se sentam. Natalí percebe que as pessoas analisam suas ataduras e as marcas que aparecem, mas olha pra frente, determinada, com as lágrimas ainda escorrendo no seu rosto.

NATALÍ IDOSA (PRELAP)
Chorei, mas daquele momento em
diante eu nunca mais tive pena de
mim mesma.

INT. LIVRARIA - DIA (59 ANOS DEPOIS)
Natalí, agora uma SENHORA, está sentada em uma mesa com vários livros, uma jarra de água e um copo. Há várias pessoas ao seu redor, escutando o discurso de Natalí.

NATALÍ

Segui em frente, voltei a estudar,
formei e reencontrei amigas de sala
de aula, que tenho até hoje.

O público de Natalí presta bastante atenção em sua história.

NATALÍ (CONT’D)

Meu primeiro namorado me rejeitou
por causa das marcas. Mas isso não
me deixou complexada e descobri que
antes de amar qualquer pessoa, eu
me amo e nada vai por abaixo a
minha autoestima.

Natalí passa a mão na capa do livro. Seu nome está escrito nele.

INT. ESCRITÓRIO - DIA (FLASHBACK)
Natalí com 18 anos, vestindo uma roupa formal e com algumas pastas na mão. Ela está em pé, ao lado de um armário, organizando as pastas.

NATALÍ (V.O.)

Meu primeiro emprego foi com 18
anos.


A jovem fecha o armário e se senta em uma escrivaninha. Começa a escrever.

INT. IGREJA - NOITE (FLASHBACK)
Natalí, em um lindo vestido branco, no altar com seu noivo.

NATALÍ (V.O.)

Me casei.

Odete e Geraldo choram no canto esquerdo, emocionados.
FIM DOS FLASHBACKS.

INT. LIVRARIA - DIA
Natalí olha para o canto esquerdo, onde sua família está.

NATALÍ

E hoje sou aposentada, com setenta
anos, filhos, netos e bisnetos.
A família de Natalí olha para ela com admiração.
A minha vida é igual a de qualquer
outra pessoa, superei obstáculos
que não foram poucos.

Natalí se levanta.

NATALÍ (CONT’D)
Superar é fazer tudo aquilo que
disseram que você não seria capaz e
surpreender positivamente, dar a
volta por cima.

Ela toma um gole da água que está na mesa.

NATALÍ (CONT’D)

Superar é vencer. E essa vitória é
só você que faz. Porque nada, nem
ninguém, tem a capacidade de acabar
com a sua autoestima. Todos somos
capazes, é só querer.

Todos ao seu redor aplaudem fortemente. Algumas pessoas choram. Uma garotinha corre para abraçar Natalí.

FADE OUT.

FIM