Sentia-se vazia, desumana, apenas alguém a mais para trazer preocupações a todos. Não era boa para escrever. Não era boa para desenhar ou para praticar exercícios físicos. Não sabia tocar instrumento algum e não gostava de exatas. Sentia-se inútil. Não sabia o que fazer da vida, afinal, não era boa em nada. Escrevia para passar o tempo. Na verdade, gostava de escrever, mas não era um gênio e a criatividade passava bem longe. Lia para passar o tempo. Fazia barulho encostando em algumas teclas pretas e outras brancas do teclado, todavia nem de longe poderia chamar aquilo de música. Às vezes as notas, por pura pena dela, agarravam-se umas nas outras e uma pequena e triste melodia era formada. Era como ela se sentia: pequena e triste. Não sabia o nome das notas e o instante que conseguira fazer o barulho virar som passava. Assim como todos em sua vida. Ela resumia-se em segundos desperdiçados. Vários deles. Segundos que poderiam ter sido usados em algo produtivo, mas que se transformaram apenas em um passado árido e nublado. Segundos que formavam um presente semelhante, desnecessário. Segundos que trariam, assim como as ondas trazem a água salgada para o doce encontro com a areia granulosa, o futuro previsível.