Get lost + 0 comment(s)
Todo dia era a mesma coisa. Acordava com a sua música preferida tocando no despertador do seu celular. Quer dizer, aquela já fora sua música predileta, mas depois de um tempo tendo todos os seus sonhos interrompidos por ela e a rotina relembrada, já temia a hora de ouvi-la. Era só o primeiro acorde musical tocar e pronto. Vinha aquele sentimento de que não poderia enrolar. Ela teria que sair do conforto de sua cama e entrar no mundo real, onde lutaria para que no futuro isso não mais ocorresse. Para que tivesse um bom plano de saúde, felicidade e dinheiro para gastar como quisesse. Era tudo muito contraditório. Agora que ela tinha energia e vontade para sair perambulando pelo mundo, não podia. Levantou e fez todo aquele procedimento diário de se arrumar. Sempre era assim, ela acordava com o celular, depois colocava-o no modo silencioso para não incomodá-la durante o dia e, à noite, retornava ao modo normal, para poder despertar e fazer tudo novamente. O modo silencioso, no entanto, não fazia com que ela não ficasse incomodada. Toda hora ela apertava teclas em seu celular para ver se o tempo estava mesmo tão lento quanto parecia. Ou melhor, toda hora não, todo segundo. Seu alívio era o fim de semana. Era quando ela saía um pouco da rotina, libertava-se. Às vezes cozinhava, lia, escrevia ou ouvia música. Podia fazer o que gostava. Então ela finalmente percebeu que sua vida era chata porque ela não fazia nada para melhorá-la. Apenas aceitava o que era proposto e contentava-se em ser aprisionada em algo que alguém, um dia, inventou para o bem estar de todos. Não necessariamente ela precisava fazer aquilo. Ou, pelo menos, podia mesclar coisas chatas com coisas legais. Deixar algumas responsabilidades para depois, viver o momento. Sair por aí sem motivo, observar o que ninguém observa, parar de contar o tempo. Get lost.
Precisava conhecer novas músicas, pessoas e ambientes. Jogar o celular fora junto com horários estabelecidos e seu rosto cansado.